Análise dos movimentos de massa no Brasil, Junho 2013 Hannah Arendt
“Talvez nada em nossa história tenha durado tão pouco quanto a confiança no poder, e nada tenha durado tanto quanto a desconfiança [...] em relação ao seu espaço de aparência; e [...] nada é mais difundido que a convicção de que ‘o poder corrompe’”. (Hannah Arendt)
Tentar exprimir o que ocorre nestes movimentos já é de certa forma apresentar uma ótica do qual se espera que se corresponda. É ao pronunciar o que ocorre na própria condição de existência do humano, apresentar o que dele pode ser observado que pode nos levar de forma equivocada. Portanto, esse texto visa apresentar apenas uma das perspectivas que se pode assumir, uma vez que a sociedade, e os próprios movimentos apresentam características que são próprias da contemporaneidade de se ser no meio da massa, e ter de ser na própria massa; ao mesmo tempo em que se deseja apresentar suas características particulares; não sendo, talvez, possível a tomada de um ponto de vista particular como sendo universal, esta análise pretende apresentar uma visão sobre os últimos acontecimentos dos movimentos populares e de massa que vemos ocorrer no Brasil, numa perspectiva filosófica tento por base Hannah Arendt, na obra: “A condição humana”, capítulo 28: O espaço da Aparência e do Poder (Editora Forense-universitária LTDA, 2ªedição, 1983).
Para que possamos melhor compreender, primeiramente, independentemente de qual seja à frente; de esquerda, de direita ou de centro que possam estar pertinentes na administração política do Brasil e que possam inferir nas manifestações sociais, faz-se necessário a admissão de que este é um movimento político, pois o homem, uma vez manifestado sua ação pública, o faz ante os seus. Cabem então algumas perguntas que a princípio podem ser feitas, tais como: qual a sua fundamentação? O que se manifesta nesses movimentos? Qual a sua importância e o que representa para a democracia no Brasil?
Tendo isso apresentado, talvez já se possa observar a primeira questão, na qual se torna cada vez mais evidente que a fundamentação desses movimentos de massa, se faz pela apropriação de se existir nesta multidão que se manifesta pelas ruas; bem como o que se manifesta, pois ao que aparentemente se vê é uma série de “gritos particulares” em meio à multidão. Não se tem de modo ainda perceptível uma pessoa que tenha assumido: “vamos gritar por isso e aquilo; queremos isso e isto”; tal fato torna-se de também importância na compreensão da própria política e da democracia, e o uso das redes sociais como meio imprescindível para tais acontecimentos.
O ser humano, por essência, é “Zoopolítico”; pelo fato dele não poder exercer isoladamente a dominação de seu meio, se faz necessária a convivência com os demais. Esta mesma necessidade nos levou a criação das redes sociais, na qual nos permitiram uma série de conexões as quais se faz a efetividade do ser e do existir pela própria rede; mesmo que de movo virtual com as pessoas que pertencem ao seu “perfil” como “amigos” e por aquilo que você “curte” ou “compartilha”, enfim, como necessidade de se pertencer a determinados grupos e compartilhar determinadas informações.
Essas informações se apresentam de forma bastante pragmática, com imagens que tornam bastante caricato o que se quer expressar. Se antes estávamos “limitados” a observar, “curtir” e “comentar” os ocorridos de modo particular, entre amigos e colegas – as vezes nem tão próximos – ; ao eclodir um movimento social, aparentemente, mesmo que, ainda não se saiba os reais motivos a serem manifestos, há uma voz a qual se quer fazer existir. Fazer-se existir, não mais, apenas por um voto “representativo”, mas pela participação particular e pela força, que a massa tem em transformar a política; a vida na cidade e país em que vivemos.
A fundamentação da ideia de polis nos remete á sua origem fundamentada na Grécia, na qual a criação de uma cidade-estado possibilitou ao homem a objetar-se neste meio através do discurso. Porém o discurso, que é próprio da democracia – como já nos alertava Platão –, sendo própria da democracia a necessidade, para se efetivar uma determinada realização de vontade, a “arte” de se discursar, e até mesmo de se “corromper”. Não é de hoje, nem de partido X ou Y, que estiveram no poder da nossa atual democracia no Brasil, que, para a fundamentação política, faz-se necessário este “discurso”; a arte do discursar é cada vez mais imprescindível, mas esta deve ser de modo concomitante as ações que são feitas à população que, de modo indireto, elegeu um determinado representante.
Os governos existentes não puderam atender uma série de expectativas, estas, agora, percebe-se que muitas vezes não foram observadas e levadas a sério; os poderes representativos realizaram ações por vontades próprias e do poder pelo simples poder; todavia, o poder se efetiva, não como instância última, mas como potencialização e realização das esferas particulares no publico.
As
manifestações que tem ocorrido no Brasil, pelo que se nota não ocorrem de forma
isolada, pois esse fenômeno se apresenta em vários outros países, nas quais
também se têm a característica dos usos das redes sociais; mesmo que cada um
tenha características que lhe são próprias, as conexões existentes através da
rede difunde a perspectiva de que há algo a mudar. Mas devemos ficar atentos
que o que move, em linhas gerais, as manifestações são de forma generalizada
vontades particulares por uma forma de governo, que se deve admitir que se fosse
para um bem geral, não há possibilidade de atender às solicitações particulares.
Essas são de vital importância, pois trouxe à tona as frustrações da população presas por longos anos na sociedade brasileira, só que com isto não podemos aceitar, e devemos ter cuidado, para que não se imponha uma estrutura autoritária. Os manifestos podem servir para alerta o governo que o discurso não é mais algo que deva se acabar por si só, mas mostrar-se em ações. Os preços das passagens do transporte público urbano foi apenas um “estopim”, na qual diz: “os custos para sermos um Brasil estão altos demais e não temos os devidos retornos”; as estruturas em vigência são nele questionados, e por direito o devem ser e cobrar as efetivas ações nas quais não se quer que alguns representantes, que na maioria das vezes nem os representa, ainda seja um custo tão pesado. Que se façam eventos esportivos, mas não se esqueça dos serviços de base, que é ali que se mostra o governo; que os deputados possam responder à lei, que numa democracia que se faz pelos três poderes: Legislativo, Executivo e Judiciário – como proposto por Montesquieu –. Que se faça ouvir a voz das vontades insatisfeitas da população, porém não apenas no discursar e sim nas ações que lhe cabe transformar, pois ao que pode resultar na necessária mudança do poder ou de sua estrutura em vigência.
Apesar de ser “pacifica” as manifestações em massa, nada tem deste termo. Apesar de não fazer-se uso da violência, uma vez que à população a mesma não é legitimada, a “fragilidade” da condição de existência particular conhece que se juntar aos seus demais o torna mais “forte”. Força tal que é ainda mais violente até do que o uso de qualquer arma, uma vez que é o que possibilita derrubar o próprio governo, pois se quer governar para aqueles que estão vivos, e não para os que poderiam estar mortos. Diante das manifestações o governo torna-se limitado de tomar qualquer ação violenta, pois a dor assumida por um passa a ser tomada como se o fosse de todos.
O poder da massa tende a transformar e ser em última instância o questionamento do próprio poder em vigência. Porém nem sempre este se mostra ser algo muito salutar, pois neste meio da multidão, poder-se-ia alguém fazer-se ouvir a qual se assuma como verdade a todos e suba como uma figura heroica, que poderá se por de forma totalitária. Um governo que se mostra apenas pelas palavras e não condiz à ação tende a ser extinto; contudo deve-se observar que, em países como Egito, que ocorreu a “primavera árabe”, acabou impondo um governo ainda mais totalitário que o anterior. As manifestações, aparente, apresentam, assim como lá, aqui no Brasil, em suas essências ideais nacionalistas em defesa de uma política “limpa” e com o uso do hino nacional e da bandeira; porém manifestações de massa e nacionalistas, quase nunca, ao longo da história, nos levaram a governos democráticos na qual, ainda que restritamente, as vontades particulares podem fazer-se ouvir.


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